Pequeno Demais, Velho Demais,
Bom Demais para Ser Verdade
Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos.
Mateus 20.16
A única coisa mais lenta do que o jeito de andar de Ben era seu modo arrastado de falar. "Olaaaá, rapaz", dizia esticando as palavras e demorando um mês entre uma frase e outra, "cá estamos nós outra vez".
Cabelos alvos como a neve e ondulados escapando de seu boné de beisebol. Ombros curvados. Rosto encarquilhado de sete décadas de inverno no oeste do Texas.
Lembro-me mais ainda de suas sobrancelhas. Cercas vivas de pêlos hirsutos no alto da testa. Taturanas que se movimentavam concomitantemente com seus olhos. Passava grande parte do tempo olhando para o chão enquanto falava. Era um homem de estatura baixa. E nessa posição parecia mais baixo ainda. Quando queria enfatizar uma questão, levantava os olhos e fitava o interlocutor através das grossas sobrancelhas. Lançava esse olhar a qualquer um que questionasse sua capacidade de trabalhar no campo petrolífero. Mesmo assim, quase todos questionavam.
Meu bom relacionamento com Ben tem algo a ver com meu pai que acreditava que os dias de folga na escola serviam para os meninos ganhar dinheiro. Quer gostássemos ou não, no dia de Natal, nas férias de verão ou no Dia de Ação de Graças, ele acordava meu irmão e eu antes do nascer do sol e nos arrastava até uma companhia petrolífera nas proximidades onde houvesse um intermediário de biscateiros, e indagava se poderíamos ser contratados por um dia.
Trabalhar no campo petrolífero tem altos e baixos semelhantes a lidar com equipamentos de perfuração; portanto, se você não pertencesse a uma empresa ou tivesse sua própria equipe, não haveria garantia de trabalho. Os biscateiros chegavam muito antes dos supervisores. No entanto, não importava quem chegasse primeiro; o que importava era a resistência de suas costas e sua experiência de vida.
Era aí que estavam nossos problemas. Eu tinha costas fortes, mas não experiência; Ben tinha mãos calejadas, mas não resistência física. Portanto, se não houvesse um trabalho grande o suficiente que justificasse quantidade em detrimento de qualidade, geralmente Ben e eu éramos preteridos.
Os acontecimentos das manhãs eram tão previsíveis que hoje, vinte anos depois, ainda consigo senti-los.
Posso sentir o vento penetrante castigando minhas orelhas na escuridão da madrugada. Posso sentir a maçaneta gelada da pesada porta de metal que dava entrada para o galpão. Posso ouvir a voz rude de Ben vinda do fogareiro que eleja acendera e sentara-se ao lado: "Feche a porta, rapaz. Vai esfriar antes que comece a esquentar."
Eu atravessava a escuridão rumo à luz dourada que vinha do fogareiro, virava de costas para o fogo e olhava para Ben. Ele fumava, sentado em um barril de 200 litros. Seus pés calçados com botas de trabalho ficavam pendurados a uns 30 centímetros do chão e a gola do casaco enrolava-se em seu pescoço.
"Precisamos começar a trabalhar logo, rapaz. Precisamos trabalhar."
Outros trabalhadores começavam a aparecer. A cada chegada diminuíam as chances que Ben e eu tínhamos de conseguir trabalho. Em breve o ar impregnava-se de fumaça, piadas grosseiras e reclamações sobre o fato de precisar trabalhar para tubarões em um clima tão gelado.
Ben nunca falava muito.
Pouco depois entrava o supervisor. Pode parecer engraçado, mas eu ficava um pouco nervoso ao vê-lo entrando no galpão para ler a lista.
Com a eloqüência de um sargento instrutor, gritava o tipo de trabalho a ser feito e quem ele queria para executá-lo. "Preciso de seis mãos para limpar a bateria hoje", ou, "Para colocar uma nova linha no campo do sul, vou precisar de oito." Em seguida, lia a lista em voz alta: "Buck, Tom, Happy e Jack — venham comigo."
Havia um certo orgulho quanto a ser escolhido... algo especial quanto a ser escalado, mesmo para cavar fossos. Mas assim como havia orgulho em ser escolhido, havia uma certa vergonha quanto a ser preterido. Novamente.
A única posição inferior ao biscateiro no sistema hierárquico do campo petrolífero era a posição de desempregado. Se você não soubesse soldar, trabalharia na perfuração. Se não soubesse perfurar, trabalharia nos poços. Se não soubesse trabalhar nos poços, seria um biscateiro. Mas se não conseguisse sequer ser um biscateiro...
Muitas vezes Ben e eu não conseguimos o lugar de biscateiro. Nós, os excluídos, permanecíamos ao redor do fogareiro por alguns minutos, inventando desculpas para dizer que não estávamos interessados no trabalho. Em breve o pessoal se dispersava deixando Ben e eu sozinhos no galpão. Não tínhamos lugar melhor para ir. Além disso, de repente poderia surgir uma nova oportunidade. E assim permanecíamos ali, aguardando.
Chegava, então, o momento de Ben conversar. Misturando fatos com ficção, ele engendrava histórias de procura de petróleo em campos improdutivos com varinhas de condão e mulas. A madrugada transformava-se em dia e nós dois continuávamos sentados em pneus velhos ou latas de tinta, passeando pelas estradas empoeiradas da memória de Ben.
Formávamos uma dupla e tanto. Em certos aspectos estávamos em posições opostas: eu com menos de quinze anos de vida, Ben em suas setenta primaveras. Eu — em pleno vigor físico e convencido de que o melhor ainda estava por chegar. Ben — cansado e rabugento, vivendo das lembranças do passado.
Porém, tornamo-nos amigos. Porque no campo petrolífero éramos os excluídos. Companheiros de fracasso. Os "pequenos demais, velhos demais". Você sabe do que estou falando? Você também é um desses?
Sherri é. Depois de doze anos de casamento e três filhos, seu marido encontrou outra mulher um pouco mais jovem. Um exemplar mais novo. Sherri foi passada para trás.
O Sr. Robinson é. Três décadas na mesma empresa e só mais uma posição a ser galgada, a mais alta. Quando o executivo se aposentou, Robinson imaginava que seria apenas uma questão de tempo. A diretoria, contudo, tinha outros planos. Queria juventude. A única coisa que Robinson não tinha. Foi dispensado.
Manuel poderia lhe contar. Poderia, se pudesse. É muito difícil ser um dos nove filhos de um lar sem pai no Vale do Rio Grande. Para Manuel é mais difícil ainda. Ele é surdo-mudo. Mesmo que houvesse uma escola especializada para surdos, não poderia freqüentá-la por falta de dinheiro.
"Uma bola perdida no meio de capim alto."
"Um dia atrasado e sem dinheiro."
"Sujeito pequeno em um mundo alto."
"Tijolo que não faz parte de uma pilha."
Escolha a frase — o resultado é sempre o mesmo. Diz-se com freqüência que só a fruta podre é jogada no lixo, e você começa a acreditar nisso. Começa a se achar "pequeno demais, velho demais".
Se é assim que você se descreve, está segurando o livro certo no momento certo. Mas saiba que Deus tem um sentimento especial para com os excluídos. Você já percebeu?
Viu sua mão tocar a pele em chagas do leproso?
Viu o rosto da prostituta encostado em suas mãos?
Percebeu como ele reagiu ao toque da mulher que padecia de hemorragia?
Viu como ele passou o braço ao redor do pequeno Zaqueu?
Mais uma vez, Deus deseja que compreendamos a mensagem: Ele nutre um sentimento especial para com os excluídos. O que a sociedade rejeita, Deus aceita. O que o mundo considera perdido, Deus recolhe. Foi por isso que Jesus contou a história dos trabalhadores escolhidos. É a primeira história de sua última semana. É a última história que ele contará antes de entrar em Jerusalém.
Mas ele não está em Jerusalém. E não fala a seus inimigos. Está na zona rural de Jerico e com seus amigos. E é para esses amigos que Ele conta esta parábola.
Um proprietário de terras necessita de trabalhadores. Às seis horas ele contrata um grupo; todos concordam com o salário e são enviados ao local de trabalho. Às nove horas ele volta à agência de empregos e contrata mais alguns. E ao meio-dia ele volta, e às 15 horas torna a voltar, e às 17 horas... você já sabe. Volta outra vez.
O ponto principal da parábola é a raiva daqueles que trabalharam doze horas em relação aos demais que receberam salário igual. Essa é uma mensagem muito importante, mas será deixada para um outro livro.
Desejo ressaltar um aspecto quase sempre esquecido nessa história: a escolha. Você consegue compreender? Aconteceu às nove horas. Aconteceu ao meio-dia. Aconteceu às 15 horas. E o mais impressionante, aconteceu às 17 horas.
Cinco horas da tarde. Diga-me uma coisa: o que faz um trabalhador às 17 horas? A maior parte do serviço já foi feita. Os trabalhadores medíocres chegaram na hora do almoço. Os últimos aproveitáveis chegaram às 15 horas. Que tipo de trabalhador é deixado para ser escolhido às 17 horas?
Não fizeram nada o dia todo. São inexperientes. Despreparados. Incultos. Estão pendurados no degrau mais baixo da escada. São totalmente dependentes de um patrão misericordioso para lhes dar uma oportunidade que não esperavam.
A propósito, somos iguais a eles. Deixando de lado um pouco do orgulho, devemos aceitar o conselho de Paulo e analisar o que éramos quando Deus nos chamou. Você se lembra?
Alguns de nós eram educados e espertos, mas franzinos como papel machê. A vida era uma busca de emoções. Estávamos à procura de um tesouro dentro de um baú vazio em um beco sem saída.
Você se lembra de como se sentia? Lembra-se do quanto transpirava de angústia em sua alma? Lembra-se de como se esforçava para ocultar a solidão até ela ficar maior do que você, e a partir de então tentava apenas sobreviver?
Atenha-se a essa cena por alguns instantes. Agora responda: por que ele escolheu você? Por que ele me escolheu? Honestamente. Por quê? O que nós temos que possa interessar a ele?
Intelecto? Francamente, será que chegamos a pensar por um minuto que temos — ou, quem sabe, teremos — um pensamento que ele não tenha tido?
Determinação? Posso respeitar isso. Podemos ser obstinados a ponto de caminhar sobre a água se formos chamados a fazer isso... mas será que o reino de Deus teria sucumbido sem nossa determinação?
E que tal dinheiro? Entramos no reino com um pequeno pé-de-meia. Talvez seja por isso que fomos escolhidos. Talvez o criador do céu e da terra pudesse fazer uso de um pouco do nosso dinheiro. Quem sabe o dono de todos os seres vivos e de todas as pessoas e também autor da História estivesse necessitando de algum capital e tenha vislumbrado em nós alguma possibilidade...
Entendeu o sentido?
Fomos escolhidos pelos mesmos motivos que os trabalhadores das 17 horas foram. Você e eu? Somos os trabalhadores das 17 horas.
Somos nós que nos encostamos na cerca do pomar fumando cigarros pelos quais não podemos pagar e apostando em um joguinho qualquer algumas cervejas que não temos condições de comprar. Trabalhadores migrantes, sem emprego e sem futuro. Deveríamos poder ir para casa após o apito da hora do almoço, mas nossa casa é apenas uma moradia de um cômodo onde há uma esposa nos aguardando e cuja primeira pergunta será: "Você conseguiu ou não?"
E assim esperamos. Os pequenos demais, os velhos demais.
E Jesus? Bem, Jesus é aquele motorista da camioneta preta, proprietário das terras na encosta da colina. Ele é o homem que nos viu na estrada quando passava por nós, deixando um rastro de pó atrás de si. Ele é aquele que parou a camioneta, deu marcha a ré e se aproximou de onde estávamos.
É sobre ele que você conversará com sua esposa esta noite enquanto caminha até a mercearia com alguns trocados no bolso. "Nunca tinha visto esse camarada antes. Ele parou, abriu o vidro da camioneta e perguntou se queríamos trabalhar. O dia já estava terminando, mas ele nos disse que tinha um serviço urgente. Juro, Martha, trabalhei apenas uma hora e ele me pagou o dia integral."
"Não, não sei seu nome."
"É claro que vou procurar saber. Bom demais para ser verdade, aquele camarada."
Por que ele escolheu você? Porque quis. Afinal de contas, você pertence a ele. Foi ele quem fez você. Ele o levou até sua casa. Ele é seu dono. E certa vez, ele deu-lhe um tapinha no ombro e o fez lembrar daquele fato. Não importa quanto tempo você esperou nem quanto tempo perdeu; você lhe pertence e ele tem um lugar para você.
. . . . . . .
— Vocês aí, querem trabalhar?
Ben pulou do barril e respondeu por nós dois.
— Sim senhor.
— Peguem seus bonés e marmitas e subam no caminhão.
Não foi necessário dizer duas vezes. Eu já havia almoçado mas, mesmo assim, peguei minha marmita. Subimos na carroceria e nos encostamos na cabina. O velho Ben colocou um cigarro na boca e pôs a mão ao redor da chama do fósforo para protegê-la do vento. Embora tenham-se passado vinte anos, ainda posso ver o brilho de seus olhos através das grossas sobrancelhas.
— E bom ser escolhido, não é, rapaz?
— Com certeza, Ben. Claro que sim.
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